
A tela em branco é o desafio ao fim de uma etapa superada.
Idéias e planos surgem em minha mente pedindo para tomarem forma, cores, gosto.
Minha inércia impossibilita qualquer ação.
No divã, não falo o que quero, não escuto o que preciso, divago devagar sem mesmo sair do lugar.
É assim que meu mundo gira, é assim que meus pensamentos renovam.
Mas a tela continua ali, branca, pálida.
Sou uma mariposa que pensa ser uma borboleta.
Do doce néctar faço vida, mas a vida nunca foi, nem será, doce.
Tenho uma tela em branco para ser o que eu quiser.
O que menos quero é ser “eu” e deixar que minhas mãos tolas quebrem o caleidoscópio que ofusca o verdadeiro mundo que me nego a enxergar.
Não quero nunca sentir o gosto amargo do féu ao descobrir que o mundo é cinza e cruel.
Nego-me a perceber que das formas e cores bonitas que enxergo tudo, é apenas um sonho surreal, e que insisto transformá-lo em vida, me alimentando desta paranóia extinguindo a lucidez, colocando em órbita minha cabeça.
Tudo tão incerto quanto o que preencherá o quadro.
Sou todas as formas, todas as cores, sou a união das formas, união das cores, sou o branco.
O branco de todas as cores, o branco do vazio, o branco de tudo.
Vivo, não faço nada, condiciono sonhos utópicos e de braços cruzados, faço força para que as engrenagens do mundo girem, que a vida passe, que o mundo rode, para que o vento sopre, que a tela rasgue, que o sonho morra, até que a vida padeça.
Sigo meu ritmo e o mundo continua a girar.
Um passo a frente, é um passo a mais para solidão.
A preguiça e a má vontade imperam como tiranos e o medo de ter medo nos paralisam.
A impotência domina, a preguiça reina e o mundo gira: a inércia move o mundo.
A vida passa e a tela tende a ser branca, colorida e cheia de formas, brancas.
Prefiro assim. A realidade é cinza e burra.
Quero ser o branco sem graça para quem enxerga, e que na realidade vivo cheia de graça e respiro o prazer de todas as cores.
Sou a inércia.
Sou o movimento contrário.
Sou a corrente oposta.
Sou a constante aposta.
Sou o ódio do mercenário.
Prazer, sou Mércia.