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Bagunça

Ele me olhava com seu olhar de peixe-morto. Cansado do meu arroz com feijão, e eu cansada dos seus roncos. Cansado do trabalho, dos horários. E eu cansada de meus vários trabalhos, de minhas várias funções. Ele estava cansado da minha desorganização e impulsividade. Eu estava cansada dele fingindo que era organizado. Nós dois estávamos cansados.

Nessa inércia a casa rangia. Um leve piscar já era um turbilhão de sons.

Ele ligou a TV. Quem disse que eu queria ver futebol? Ele soltou um peido podre. Quem disse que eu queria respirar isso? Ele coçou o saco. Quem disse que eu queria presenciar essa cena?

Ele soltou uma pequena risada. Olhou para mim, sem jeito. Eu retribui o sorriso.

A casa estava uma bagunça… Nosso amor também. Quem disse que queríamos que fosse de outro jeito?

   Largando o jogo de lado, de mãos dadas, nos entendemos na bagunça do nosso quarto.

Goodbye brown road

Sun_flowersO carro partia com ela olhando

Para a estrada marrom feita de pó

Sua mão tocava o vidro traseiro

Adeus

 

Jogou a vida inteira no ar                      

Para finalmente começar a viver

 

O que era marrom ficou para trás

Deixando com ela apenas sua essência verde

Servindo de esterco

Para seus girassóis

Borra

Poderia ser fácil, como rasgar uma seda com uma espada afiada. Mas sem a espada de combate, restariam as unhas, mas sem unhas, roídas pelo temor, a seda já se tornara algo duro, maciço e retorcido, assim como uma árvore cascuda de cerrado.

 

Já não tinha o controle de sua descoordenada mente.

As sujas idéias já não eram filtradas mais. Assim como um coador de pano velho e rasgado. Deixando passar todo o fel amargo, escuro e pesado da borra do passado contaminar a já amarga, mas pura mente.

 

E como o vício de um café árabe, sua mente se alimentava das incertezas escuras, amargas e pesadas de um tempo no qual nunca fez parte. Enquanto seu corpo já padecia nas penumbras do teatro abandonado, insanamente sua mente sedentamente se satisfazia doentemente daquele efeito ilícito. Parecia ser a última dose do preto líquido de insucessos, adocicadas com memórias inventadas numa xícara de uma vida jamais vivida. Jamais seria.

 

Uma xícara e uma chance de mudar todo o passado. Era essa equação e ele contaminava cada vez mais o corpo já pálido e cansado de lutar contra forças desconhecidas e medonhas.

 

Era hora de sua consciência surgir e urrar que não se pode mudar o que não se viveu, o que já passou e não tem retorno. Mas a dura e retorcida seda, já isolava sua mente, crescendo como uma árvore de cerrado dentro de sua cabeça. Uma árvore adubada pelas merdas de sua mente, gerava o fruto proibido que alimentava seus pensamentos e memórias fugitivas. Cada fruto, mais merda, mais adubo, mais crescia a árvore do desassossego. Galhos saiam de sua orelha, restava apenas a cegueira, a fome, o medo do mundo e a incerteza de quem perambulava a procura de uma espada. Era como atirar no escuro, como ler o futuro, búzio, cartas ou o desenho de uma borra de café na xícara.

 Borra_BinLaden

Mais uma xícara, já fria. Boa noite. Amanhã tudo se resolverá. Ou acordarás dentro da insensatez da xícara da amargura de idéias incoerentes e irreais. Ou a fada do dente finalmente lhe dará uma espada para cortar a árvore sem fim de seu encéfalo. E assim, restará apenas a seda, já encharcada de lágrimas para ser facilmente rasgada e esquecida, mas jamais deixará de ser matéria, viva ou morta, mas existente, só não mais importante que sua espada da fada do dente.

 

 A espada do bom senso e do corte daquele coador saturado. Só assim para ser reestruturado um novo consenso, de bom senso e talvez um pouco de senso de humor, que como a queimada de um incenso, perfumará a vida e o mundo imundo daquele que tem medo de ficar mudo. Pois já surdo e quase cego, não desejava ficar mudo, para poder urrar para todo mundo, que, mesmo sem as unhas, o dedo já no sabugo retirava, sem temor, a borra de seu corpo pálido e imundo.

 

 Urros de terror de quem parecia sentir muita dor, seguidos com pesadas gotas gigantes de lágrimas, que lavavam de seu corpo, as duras lembranças das viagens ao desconhecido, ao indevido e pesado, ao já desqualificado, mas existente: o passado.

Mesmo ar

(outro texto escolar)

Estranha a forma que uma sala de aula funciona. Vários alunos de mais ou menos a mesma faixa etária, sentados em carteiras, respirando o mesmo ar e aprendendo as mesmas matérias. Alguns são muito amigos entre si; outros não passam de colegas de sala, e outros nunca se falam.

Sentado na fileira ao lado da minha, situado na segunda carteira, lá está ele. Eu me sinto completamente constrangida quando este fica em pé ao meu lado: eu bato nos joelhos dele! Não, eu nunca bati nele. Aliás, acho que nem nunca tive contato físico com ele. Eu estou querendo dizer que os joelhos dele ficam na altura de minha cabeça quando ambos estamos em pé (claro que isso é uma hipérbole).

O nome dele é Tales. Já deve ter 16 anos, eu imagino. Onde ele mora? Não faço a menor idéia. Ele é assustadoramente alto. Ou será eu que sou assustadoramente pequena? Sua pele é morena, ele é magro, sempre o vejo sorrindo, mas quase nunca escuto a sua voz.

De qualquer forma, lá está ele, sentado na fileira ao lado da minha, situado na segunda carteira e respirando o mesmo ar que eu.

educa01_06_2009

Travesseiro Banguela

(já que não tenho mais criatividade para escrever, vou postar um texto que escrevi na escola há muito tempo)

Receoso, ele se aproximou e sentou no chão ao seu lado, observando a multidão dispersar-se. Ele não sabia por que estava fazendo aquilo; apenas sentia que devia ficar ali, ao lado daquela desconhecida que usava um saco de ração como vestido.

Olhou para baixo e viu suas próprias pernas: uma dobrada em cima da outra. Aqueles malditos tênis haviam custado um mês de trabalho e, quando finalmente os comprou, não se sentiu tão bem assim. Havia gasto muito dinheiro para ir àquele show internacional também, com a esperança de encontrar a felicidade ao menos dentro de alguns copos de cerveja; mas ela não estava lá.

O mundo estava todo cinza para ele. Ele só queria encostar sua cabeça, que parecia girar por dentro, num macio travesseiro e ser feliz e satisfeito, pelo menos em sonhos.

Por mais estranho que parecesse, ele não queria mais a companhia de ninguém; apenas da mendiga que sorria sua falta de dentes.

Como se tivesse ouvido seus pensamentos, ela disse:

-Pode usar meu ombro, se quiser.

Sem pensar duas vezes, ele lhe obedeceu e dormiu em paz, em um travesseiro que sorria, apesar de não ter dentes.

mendiga foto pequenina

dap.

Tv a cabo

tv-300x191

O boletim metereológico

Prevê amanhã ou agora

Se chove ou se faz sol

Pra que ir lá fora?

 

A comida suculenta que a Ana Maria Braga

Serve à minha frente

Como-a toda com os olhos.

Não preciso de dentes.

 

Nos dramas e paixões que representa

Há vida, há amor… poder

De uma vida que nem mesmo um dia

Me canso em viver

 

Guerra, carros, sexo, jogatinas e esporte

Me dás tudo o que sempre desejei

Vou trancar minha porta

Não preciso do mundo

Da vida me aposentei.

Lights

Onze horas.

Já não via a hora de trancar todas as portas e apagar as luzes, da sala e da garagem. Queria mesmo era evitar essa viagem que se aproxima e rasgar aquela passagem.

Sinta, parece que o fim do mundo essa noite de quinta.

Lá fora não há sons, a não ser o chão borbulhando de calor. Tudo parece em chamas, de tanto calor, de tão quente. E diante disso tudo, não consigo encontrar meu sossego aqui dentro, dentro de minha mente.

Já é madrugada e o espaço deste quarto me deixa nesta encurralada, todos os meus medos e ansiedades me cercando e rindo da minha cara enquanto me encolho no chão. Ligo a televisão, e entro debaixo do cobertor, deixo o volume bem baixo enquanto as luzes azuis dançam ao meu redor.

Já sem coberta, vejo a luz do dia escalando as paredes, saindo pela pequena fresta da janela semi-aberta. Os carros são ligados, os pés andam pelo corredor barulhento, o cheiro de café invade meu apartamento. É o sinal que preciso para fugir de todo meu pensamento.

O mundo acorda e eu estou a salvo. Pelo menos pela luz do dia.

luz

Bomb

Demonstration_cluster_bomb

Às vezes me sinto dentro de uma bomba relógio. Na verdade, uma bomba qualquer, sem hora para explodir. Apenas 23 anos de idade, mas as responsabilidades e medos me envelhecem, no mínimo, 20 ou 200 anos. Não sou filho solteiro, nem sou pai. Mas sou um filho sozinho que tem de cuidar dos pais solteiros. De longe sou pouco amigável, de perto, sou sincero e compreensivo. Por fora, sou cascudo e forte. Por dentro sou sensível, pequeno e mal consigo carregar o piano que levo nas costas. Constantes são aquelas pressões sucumbidas para dentro, goela abaixo, vindas de todos os lados. E assim, vivo, engolindo sapos, sermões, choro, responsabilidade e culpas… a ponto de ir me enchendo, enchendo, enchendo tanto, que tudo possa ir para os ares assim que uma fenda rompa meu peito: Como uma bomba, sem hora para explodir. Assim, pois, não me sinto apenas dentro de uma, e sim, sendo uma daquelas bombas… daquelas bem grandes.

O obstáculo

Era simples. Cessar toda aquela parafernália em sua cabeça era, de fato, muito simples. Sua sede de arranjar probleminhas e pequenas ‘auto-alfinetadas’ que não tinham propósito nenhum, poderia ser substituída por obstáculos que realmente existissem, e não ela própria. Mesmo sendo pequenina, era o maior obstáculo do mundo: o mais estranho; o com o cabelo praticamente sempre “bad hair day”; o obstáculo com assadura, coceira e micose… O obstáculo que dizia para ela que ela não tinha nada demais… Que nunca iria brilhar. O que a olhava em vitrines e vidros de carros sussurrando: “Olha como você é amassada e cabeçuda”. No espelho ele a assustava com suas monstruosas sobrancelhas com falhas e despenteadas.

E ele não parava por aí não. Onde quer que ele pudesse desmotivar e encucar e neurotizar, pode ter certeza que lá ele estaria.

Mas ela tinha algo com o qual ele não contava… Algo que quando estava perto dela, ele (o obstáculo) virava uma simples baratinha – ele não deixava de existir; estava lá: só bastava que ela tivesse coragem de ir e pisar com bastante força de uma vez por todas.

Bom…meu bem… Você sabe que este “algo” é você.

Obrigada por toda força que você sempre me dá. Você não tem idéia do bem que você me faz.

Te amo muito!

( a imagem não tem nada a ver…só achei ela bonita. Se bem que tem a ver sim, eu acho )girassois21

Céu nublado

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O dia já começava solitário e tarde. Não tão tarde quanto antes, mas ainda tarde. Talvez o melhor fosse deitar de novo e aguardar pelo fim da tarde, ou quem sabe sentir o vento de junho pela janela e sentir saudade da época em que queria tantas vezes transformar os momentos em instantes estáticos, e ficar lá para sempre, sentindo calor misturado com frio; enjôo (de ansiedade) misturado com frio na barriga; entre tantas outras sensações indecifráveis, mas maravilhosas… Onde estariam estas, afinal de contas?

Se concedeu descansar, esquecendo a janela aberta e o dia acabando.

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