Poderia ser fácil, como rasgar uma seda com uma espada afiada. Mas sem a espada de combate, restariam as unhas, mas sem unhas, roídas pelo temor, a seda já se tornara algo duro, maciço e retorcido, assim como uma árvore cascuda de cerrado.
Já não tinha o controle de sua descoordenada mente.
As sujas idéias já não eram filtradas mais. Assim como um coador de pano velho e rasgado. Deixando passar todo o fel amargo, escuro e pesado da borra do passado contaminar a já amarga, mas pura mente.
E como o vício de um café árabe, sua mente se alimentava das incertezas escuras, amargas e pesadas de um tempo no qual nunca fez parte. Enquanto seu corpo já padecia nas penumbras do teatro abandonado, insanamente sua mente sedentamente se satisfazia doentemente daquele efeito ilícito. Parecia ser a última dose do preto líquido de insucessos, adocicadas com memórias inventadas numa xícara de uma vida jamais vivida. Jamais seria.
Uma xícara e uma chance de mudar todo o passado. Era essa equação e ele contaminava cada vez mais o corpo já pálido e cansado de lutar contra forças desconhecidas e medonhas.
Era hora de sua consciência surgir e urrar que não se pode mudar o que não se viveu, o que já passou e não tem retorno. Mas a dura e retorcida seda, já isolava sua mente, crescendo como uma árvore de cerrado dentro de sua cabeça. Uma árvore adubada pelas merdas de sua mente, gerava o fruto proibido que alimentava seus pensamentos e memórias fugitivas. Cada fruto, mais merda, mais adubo, mais crescia a árvore do desassossego. Galhos saiam de sua orelha, restava apenas a cegueira, a fome, o medo do mundo e a incerteza de quem perambulava a procura de uma espada. Era como atirar no escuro, como ler o futuro, búzio, cartas ou o desenho de uma borra de café na xícara.

Mais uma xícara, já fria. Boa noite. Amanhã tudo se resolverá. Ou acordarás dentro da insensatez da xícara da amargura de idéias incoerentes e irreais. Ou a fada do dente finalmente lhe dará uma espada para cortar a árvore sem fim de seu encéfalo. E assim, restará apenas a seda, já encharcada de lágrimas para ser facilmente rasgada e esquecida, mas jamais deixará de ser matéria, viva ou morta, mas existente, só não mais importante que sua espada da fada do dente.
A espada do bom senso e do corte daquele coador saturado. Só assim para ser reestruturado um novo consenso, de bom senso e talvez um pouco de senso de humor, que como a queimada de um incenso, perfumará a vida e o mundo imundo daquele que tem medo de ficar mudo. Pois já surdo e quase cego, não desejava ficar mudo, para poder urrar para todo mundo, que, mesmo sem as unhas, o dedo já no sabugo retirava, sem temor, a borra de seu corpo pálido e imundo.
Urros de terror de quem parecia sentir muita dor, seguidos com pesadas gotas gigantes de lágrimas, que lavavam de seu corpo, as duras lembranças das viagens ao desconhecido, ao indevido e pesado, ao já desqualificado, mas existente: o passado.